Raio-X do cabelo, parte 2 – Córtex, ligações físico-químicas e o mistério da medula capilar

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Continuando a nossa série de posts sobre a estrutura e o funcionamento do cabelo (se você perdeu o primeiro post, leia aqui), dessa vez vamos entrar mais a fundo na composição dos fios. Literalmente! Vamos passar através da cutícula e chegar até o “coração” do cabelo, a camada que determina a cor, a elasticidade, a força, o formato e uma série de outras características que formam a “identidade” dos fios. Vamos lá!

Segunda parte: o córtex

O córtex do cabelo é formado por uma série de fibras, que são formadas por várias fibras menores, que são formadas por outras, que por sua vez… bom, você entendeu a ideia. As menores unidades que formam essas fibras são cadeias de queratina (sim, aquela mesma proteína que compõe a maior parte da cutícula do cabelo).

Essas cadeias se ligam umas às outras e se enroscam em formato de espiral, como uma mola ou o fio de um telefone. Isso significa que, beeem lá no fundo, até o mais liso dos cabelos na verdade é todo cacheado por dentro 😉

Essa estrutura define algumas das características do nosso cabelo, como a elasticidade, por exemplo. As espirais de queratina do cabelo permitem que os fios sejam esticados e aumentem o seu comprimento em até 50% (!), e depois voltem para o tamanho normal. Isso é muito útil quando a gente vai pentear o cabelo, por exemplo: se os fios não tivessem elasticidade, toda vez que o pente prendesse em alguma parte embaraçada do cabelo a mínima tensão poderia fazer com que eles se quebrassem.

A conexão das cadeias de queratina é um ótimo exemplo daquela frase que diz que “a união faz a força”: uma fibra sozinha não aguenta muita coisa, mas todas juntas num fio de cabelo saudável podem sustentar até 100g de peso sem se romperem! Essa característica confere resistência ao cabelo (quebrar um galhinho sozinho é fácil, mas vê se você consegue juntar vários e quebrar todos de uma vez!).

Feixe de palitos de madeira

Muitas varetas finas, fáceis de partir no meio, formam um punhado quase impossível de quebrar! (Imagem original)

Outra característica que o córtex define para os fios é a cor que eles vão ter: dentro dele existem grânulos de vários tipos de melanina, e é a quantidade e a proporção entre cada tipo que determina a cor do seu cabelo.

O formato do cabelo

Se você pensou que as espirais de queratina tinham alguma coisa a ver com o fato de o cabelo ser cacheado ou liso, você acertou! Na verdade não são as espirais em si, mas as ligações que elas estabelecem dentro do fio, que determinam se ele vai ficar reto ou enroladinho. Mas o formato dos fios também participa dessa história.

Imagine que o buraquinho por onde o fio nasce é como uma daquelas bisnagas de confeitaria, que cria coberturas de formatos diferentes dependendo do desenho do bico. Se a saída do folículo for redonda, o fio vai ter o formato de um cilindro, e se for oval, esse cilindro vai sair um pouco “achatado”. Quando maior for esse “achatamento”, mais cacheado o cabelo tende a ficar.

Comparação entre formato do folículo capilar e cabelos lisos, ondulados e cacheados

O cabelo liso (como o dos asiáticos) tem a forma de um círculo quando cortado ao meio, enquanto os fios caucasianos e africanos, mais ondulados, têm um formato ovalado.

Isso acontece porque o formato do fio interfere na quantidade e na posição que as ligações vão assumir lá dentro. No fio cilíndrico a quantidade de ligações é menor, e elas são estabelecidas “em linha reta”, o que faz com que os fios fiquem lisos. Já no fio “achatado”, a maior quantidade de ligações e a posição “inclinada” que elas assumem fazem o fio formar cachos.

Sempre que alisamos um fio cacheado, ou enrolamos um fio liso, estamos quebrando e refazendo essas ligações. Vamos entender como elas funcionam:

Quebrando pontes

As cadeias de queratina se organizam e se conectam dentro do córtex através de vários tipos de ligações. As mais importantes para a determinação da forma dos fios são as seguintes:

Pontes de hidrogênio – são as ligações que existem em maior quantidade no cabelo, mas também são as mais fracas: sempre que você molha o seu cabelo elas são desfeitas, e se reestabelecem quando o cabelo seca. É nelas que você interfere quando faz uma escova no cabelo, usa a chapinha ou o baby liss: ao posicionar o fio da forma que você deseja (liso ou enrolado) e retirar a água dele, as pontes de hidrogênio são refeitas na nova posição. A vantagem é que essas ligações são as mais fáceis de manipular; a desvantagem é que basta molhar de novo e as pontes de hidrogênio se desfazem outra vez, prontas para voltar à sua configuração original quando o cabelo secar.

Pontes salinas ou ligações iônicas – são um pouco mais fortes do que as pontes de hidrogênio, e se desfazem quando o pH do cabelo assume níveis mais ácidos ou alcalinos que o padrão dos fios, se reconstituindo assim que o pH volta ao normal.

Pontes dissulfeto ou ligações de enxofre – são as ligações mais fortes que o nosso cabelo tem. Quimicamente falando, elas são formadas por duas moléculas do aminoácido cisteína, o principal componente da queratina, que se ligam através de seus átomos de enxofre e formam uma molécula de cistina. As pontes dissulfeto só são quebradas com a ação de produtos químicos, e depois de refeitas elas não voltam mais à forma anterior, a menos que uma nova alteração química seja feita (é o caso das permanentes e dos relaxamentos e alisamentos definitivos).

Terceira parte: a medula capilar

Alguns fios (geralmente os mais grossos) apresentam, além da cutícula e do córtex, uma terceira parte: a medula, uma espécie de tubo denso formado por células ricas em queratina (em forma flexível e maleável, diferente das fibras mais resistentes do córtex e das placas endurecidas da cutícula), que atravessa o fio bem no meio. Em alguns casos essas células podem desidratar, e o espaço que elas ocupariam fica vazio.

Até hoje não se sabe exatamente qual seria a função da medula capilar, mas existem algumas suspeitas. Por exemplo: os pelos dos ursos polares têm um tubo vazio no centro, que serve como um isolante térmico nas temperaturas extremamente baixas de onde eles vivem, então alguns estudiosos acreditam que a medula dos nossos cabelos possa ser um vestígio evolutivo de uma estrutura parecida com essa.

Agora que você já sabe um pouco mais sobre a estrutura dos fios do seu cabelo, falta descobrir de onde vem tudo isso. Onde o cabelo nasce? Como ele é feito? E o mais importante: o que faz ele cair?

Vamos investigar essas questões no próximo post. Até lá!

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AVISO: As informações e opiniões publicadas pelo Chega de Queda! não possuem autoridade profissional e não devem ser interpretadas como aconselhamento médico. Nunca utilize qualquer medicação por conta própria. Consulte sempre o seu médico.
Comentários
  1. Tatiane
  2. Eloah
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  3. Dilma
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